30.12.06

Conselho aos chilenos

Acabo de ler no jornal "A Notícia", em sua versão on-line, que Evo Imorales quer se aproximar dos chilenos.
A qualquer chileno que por acaso estaja lendo este blog, um conselho: Não queiram conversa com este senhor. Queiram se aproximar do povo boliviano, mas não deste mau caráter que temporariamente ocupa o posto de presidente da Bolívia. Ser "amigo", para ele, não quer dizer a mesma coisa que para o resto dos mortais. Lembrem-se do que ele está fazendo com o Brasil - com a complacência do nosso presidente, um grande amigo seu.

28.12.06

Porque o Pink Floyd acabou

Estava ouvindo o álbum "The Wall", do grupo Pink Floyd, outro dia, quando percebi que na música "Mother", enquanto Roger Waters canta os versos do protagonista - ele mesmo-, David Gilmour canta as partes da "mãe".
Sabendo que: 1) O disco saiu quase todo da mente de Roger Waters, sendo provavelmente a divisão entre os dois idéia dele; 2) o disco pinta a mãe do protagonista-autor como o diabo chupando limão de cócoras, esse disco deve ter sido a gota d'água para David Glimour.
Aqui entre nós, com toda a razão.

22.12.06

Whiskeypédia - e mais Kubrick

Eu resolvi pesquizar nesse local esdrúxulo, a Wikipédia, sobre meu querido Kubrick e seus filmes. Descobri algumas informações legais, muitas lacunas e algumas informações inúteis (você sabia que o Danny de Vitto fez o Pinguim no Batman II por insistência de Jack Nicholson?). No finalzinho, fui ler o que eles escreveram sobre De Olhos Bem Fechados. Meu Deus, eles não viram o filme! Ou, se viram, estavam com muito whiskey - ou wiki- na cabeça. Bom, na verdade, pela cor e pelo teor da "análise", estavam cheios de campari com cachaça - porque o texto apresentado, além de vermelho, é brasileiríssimo.
Não tenho estômago para reler aquilo e comentar aqui. Os interessados, por favor, procurem "De Olhos Bem Fechados" na wikipédia.
Para deleite dos masoquistas que estejam passando por aqui, fica só a última frase: "A crítica central, aliada à já mencionada miopia das relações sexuais, reside na extratificação do poder e hierarquização das classes sociais".

Ainda Spartacus

Eu vi Spartacus mais uma vez. É, realmente, o filme menos "kubrickiano"dos filmes do Kubrick que eu já vi. Peter Ustinov (em uma entrevistas de 1992, constando dos extras) diz que o todo o começo do filme (a parte feita no Vale da Morte) é do outro diretor, e pode-se sentir o peso do roteirista e o do produtor/ator Kirk Douglas. Kirk queria um épico nos moldes de Ben-Hur (porque neste filme ele tinha sido preterido por Charlton Heston para fazer o protagonista); o roteirista (o nome me foge agora) era um dos 10 de Hollywood, e tinha a intenção de fazer um épico laico e pró-comunismo.
Mesmo com essa influências, o filme ainda é, inegavelmente, Kubrick. Provavelmente a intromissão de temas religiosos e morais é dele, assim como o tratamento "iniciático" dado ao treinamento dos escravos-gladiadores.
Além disso, Spartacus, ao fim e ao cabo, dificilmente pode ser usado como propaganda pró-comunista, no formato final que Kubrick deu ao filme. O que condiz com o resto da sua obra, mais interessada em outras temáticas.
PS.: Um presente que o filme dá, independente qualquer outra coisa, é o time de atores. Que refresco, nesses dias horrorosos, é rever Charles Laughton e Sir Lawrence Olivier atuando, e em papéis anatônigos! Laughton e Peter Ustinov "tricotando" sobre mulheres e contra a personagem de Olivier também é fantástico. A sinceridade, nobreza e virilidade do Spartacus de Kirk Douglas também são memoráveis- ele é perfeito para este tipo de papel (mesmo que seja inadequado para personagens mais sutis).

Definições de blog

Eu acho engraçado essa história, nas preferências do blog, de agente apontar filmes, livros e músicas preferidas. As minhas listas sempre mudam... Pôr no mesmo saco, também, música clássica e música popular, é meio bizarro.
As minhas preferidas do momento, por exemplo, não poderiam estar de forma nenhuma juntas: uma música intimista, individualista, como "Perfect Day" (Lou Reed mesmo já disse que a sua música é feita para ser ouvida com fones de ouvido) e a grandiosa 9a. Sinfonia (se encerrando com o Hino à Alegria), não são espécies do mesmo gênero.
Antigamente, as pessoas perguntavam umas às outras sobre seus poemas, romances, novelas ou contos preferidos... "livro" inclui até livro de receitas, ou cartilha de partido..

21.12.06

revendo kubrick

Uma recente operação no nariz – o excelente doutor retirou-me um pólipo e deu um jeito no meu desvio de septo - obrigou-me a ficar na cama mais do que o normal. Aproveitei a vadiagem compulsória para rever alguns filmes: "2001", "Lolita" e "Spartacus", todos dirigidos por Stanley Kubrick. Se você que está lendo não viu algum, pare agora mesmo e vá assistir. Aproveite e alugue a coleção toda, o dono da locadora agradece. Os comentários abaixo são para quem já viu estas e outras obras do finado diretor (devo confessar que eu não vi ainda todos os filmes do Kubrick; faltam Glória Feita de Sangue, Dr. Fantástico, Barry Lyndon, O grande Golpe e A Morte Passou por Perto; são mais difíceis de achar, mas eu chego lá)
A primeira coisa que chama atenção no trabalho de Kubrick é o primor técnico. Os filmes são todos muito bem feitos, e a lista dos atores é de babar. Kubrick dirigiu Kirk Douglas em dois filmes (Glória feita de Sangue e Spartacus), Peter Sellers também em dois (Dr. Fantástico e Lolita), Jack Nicholson, Lawrence Olivier, Peter Ustinov, Shelley Winters, James Mason, Tom Cruise, Nicole Kidman, Vincent D’Onofrio, Shelley Duvall...
A segunda coisa que chama atenção é que a primeira, se não é irrelevante, é secundária. A comparação mais óbvia que eu consigo fazer é com Alfred Hitchcock. Ambos foram ousados, inovadores, de técnica apuradíssima. Ambos selecionavam a dedo seus atores. No entanto, a técnica em Hitchcock é co-diretora; sua importância é enorme. É quase impossível discutir um filme seu sem mencionar avanços técnicos ou "sacadas" geniais: a cena do chuveiro em "Psicose", a ausência de música convencional na trilha sonora em "Pássaros"... A câmera de Hitchcock é metalinguística o tempo todo (suas inevitáveis "pontas" são um bom exemplo disso).
Kubrick, por outro lado, surpreende de outra forma. Existem sutilezas e inovações técnicas em seus filmes (as cenas sem som no espaço em 2001, por exemplo), mas elas estão mais fora do caminho. O espectador pode ver o filme mais "desarmado", neste sentido.
Em compensação, a compreensão dos filmes em si exige mais. A assimilação da obra de Kubrick é comparável aos dos grandes autores da literatura mundial: Shakespeare, Dostoiévski, Camões... O quanto você tira das obras deles depende do quanto você já tem, tanto de bagagem cultural quanto de amadurecimento espiritual. Ler Dostoiévski sem ter lido Shakespeare (ou ler Shakespeare sem a Bíblia) é ler pela metade. Do mesmo modo, quando reli "Dom Casmurro", dez ou quinze anos depois de o ter feito no ensino médio, é que percebi o quanto eu não tinha entendido, simplesmente por falta de experiência.
Nenhum outro filme de Kubrick exige tanto do espectador, penso eu, do que "2001". Para que o filme – principalmente o final – faça algum sentido, a audiência tem que ter, ao menos, noções básicas de religião, história, astrologia e literatura grega. Para ficar em um exemplo simples, é bastante explícita o referência astrológica na aparição dos monolitos: (Terra –Lua – Júpiter). Nas três vezes, a câmera explora de forma bastante óbvia as posições dos astros no céu. Quem não tenha ao menos algum conhecimento do que foi dito acima, pode ainda gostar do filme, mas vai ter que aceitar muitas das coisas mostradas nele como gratuitas, ou emprestar-lhe outros sentidos.
Outra particularidade de Kubrick é que ele baseia seus filmes, invariavelmente, em livros, e até onde eu consegui ler, livros de segunda categoria; para filmá-los, no entanto, ele os transforma de forma radical e -descobri isso hoje na Wikipédia – normalmente enfurecendo os autores.
Quem estiver em dúvida, leia Lolita, de Nabokov, e depois veja o filme. Uma historinha boba sobre um pervertido e uma menina precocemente gasta se transforma, nas mãos do mestre, em um filme brilhante. É sintomático que Kubrick corte todos os antecedentes de Humbert Humbert, retirando os psicologismos baratos de Nabokov do filme e aumente enormemente as aparições e a influência de Clare Quilty.
Uma outra marca – algo que aliás, não sei de mais ninguém que tenha notado – é a sua desconfiança em relação a sociedades secretas. Elas aparecem em todos os filmes que eu vi: de forma mais explícita em Laranja Mecânica, Nascido para Matar, De Olhos bem Fechados, O Iluminado e Spartacus; de forma mais velada em 2001 e Lolita (não digo que não aparecem nos outros filmes –– mas como eu não os vi, não posso afirmar). O tratamento dado a elas é sempre respeitoso, mas nunca positivo (lembrem-se do que acontece a Gomer Pyle em Nascido para Matar e a Bill Halford em De Olhos bem Fechados, bem como a traição dos droogs em Laranja Mecânica). O valor do ser humano individual, ao contrário, é sempre exaltado: Spartacus, mesmo na cela, é mais digno do que os romanos que o aprisionam ("Eu não sou um animal!") e continua sendo após a sua liberdade (ele impede que dois romanos sejam maltratados por seus antigos escravos). O astronauta Dave, sozinho, derrota Hal. Esse valor não é esquecido mesmo nos seres humanos mais vis: o Alex DeLarge sociopata por escolha própria é mais homem que o Alex programado para ser um "bom cidadão"; mesmo o pobre Humbert, enganado e passado para trás por todos, pode matar o poderoso Quilty, porque ambos são, no fundo, seres humanos e mortais.
São esses os comentários que esses filmes me sugeriram, revendo-os na convalescência e os comparando com as lembranças dos outros. Prometo uma análise mais demorada das diferenças entre o filme e o livro "Lolita", no futuro; e prometo, também, ver os outros filmes do Kubrick e ver se minhas impressões resistem ao conjunto da obra.